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Raquel Borba Balceiro

· Doutora em Engenharia de Produção e Especialista em Gestão do Conhecimento pela COPPE/UFRJ.
· Atua na Gerência de Gestão do Conhecimento da Petrobras, no planejamento e desenvolvimento de projetos de gestão do conhecimento para a empresa.
· É professora do MBKM (CRIE - COPPE/UFRJ) e do MBA em Gestão de Projetos (Escola Politécnica - UFRJ).

Talentos & Resultados: A senhora poderia nos falar um pouco sobre como se deu o processo de Gestão do Conhecimento na Petrobras?

Profª Raquel : É importante contar que no período entre 2000 e 2001, a Petrobras passou por um processo de reestruturação organizacional muito grande. Na elaboração do projeto de reorganização, gerou-se um documento chamado Agenda de Mudanças, cuja versão mais recente foi publicada em 2001. A Agenda de Mudanças norteou uma série de ações depois da reestruturação. Neste período, a Petrobras foi estruturada em áreas e unidades de negócios. Novas áreas de negócios foram criadas, como a de gás e energia, cujo foco era expandir o mercado interno e diversificar a matriz energética do Brasil, além de coordenar estudos e implementação das energias renováveis - termo-solar, fotovoltaica, eólica e biomassa. A gerência de Gestão do Conhecimento da Petrobras, da unidade organizacional de Desenvolvimento de Sistemas de Gestão, surgiu de uma necessidade apontada em um dos projetos da Agenda de Mudanças, mas foi criada em janeiro de 2003. Eu trabalho nesta gerência.

A primeira mudança que pudemos perceber foi quanto à distribuição geográfica dos especialistas. Eles, que antes eram agrupados por função e trabalhavam próximos uns dos outros, foram espalhados pelas áreas de negócios e por atividade, pelo Brasil a fora. Agora, então, com as atividades no exterior da Cia., eles estão ainda mais espalhados, apesar de termos absorvido grande parte dos especialistas dos locais onde atuamos.

Isto se tornou um dos desafios da gerência de Gestão do Conhecimento. Passamos a nos preocupar em como prover recursos para estas pessoas manterem o nível de relacionamento e comunicação que tinham antes, seja através da intranet e do e-mail, ou pela criação de comunidades e disponibilização de outras ferramentas. Em 2002, estes especialistas foram reconhecidos pela empresa, através da adoção da carreira em "Y", podendo atuar como consultor sênior, consultor de negócio ou consultor técnico.


Talentos & Resultados: Quando se iniciou a prática de Gestão do Conhecimento na Petrobras?

Profª Raquel : Na verdade, a Petrobras sempre fez Gestão do Conhecimento, desde que ela existe. Todas as empresas de engenharia fazem. Vimos que se chegássemos com um discurso de que isto é novidade, como se tivéssemos uma fórmula mágica, teríamos muita resistência. O fato é que a empresa já usava várias ferramentas de Gestão do Conhecimento mas não com este nome.


Talentos & Resultados: Qual a principal finalidade da criação da gerência de Gestão do Conhecimento?

Profª Raquel : A principal finalidade desta gerência é atuar como uma integradora e facilitadora na área de Gestão do Conhecimento e, para tal, estamos fazendo um levantamento dos projetos de GC dispersos pela empresa, nas suas diversas áreas e unidades. Queremos mostrar as práticas que determinadas áreas estão adotando e como elas podem ser aplicadas a outras. Mas estamos evitando adotar o termo Gestão do Conhecimento para tudo. Ao pensarmos em como institucionalizar a GC na Cia., talvez optemos por adotar o nome "Programa de Integração do Conhecimento", ou algo parecido.


Talentos & Resultados: A senhora trabalhou vários anos como professora na UFRJ. Como está sendo esta mudança do meio acadêmico para a prática, no caso a Petrobras?

Profª Raquel : Existem dois pontos a considerar: um é que parece que eu já estava me preparando para sair da academia, pois nos últimos anos em que estive no CRIE/COPPE, como professora e coordenadora do MBKM, orientei o maior número possível de projetos de gestão do conhecimento que eu pude. Muitos deles eram focados, por exemplo, em Inteligência Competitiva, em Gestão por Competência e em Gestão do Capital de Relacionamento. Hoje, posso dizer que estes mais de quarenta projetos dos alunos da pós Lato Sensu me ajudaram a construir uma base para planejar novas ações na empresa. Apesar de não ter visto a fase de implementação da grande parte destes projetos, eles me deram uma noção de planejamento e de metodologia muito grande. Eu não tenho dificuldade em enxergar os projetos na prática, ver todos os passos que são necessários para que eles sejam implementados. O outro ponto a considerar é a facilidade para a aprender. A gente lê sobre isto nos livros e acha que é bobagem, mas o profissional do conhecimento tem que estar disposto a aprender sempre, sem achar que sabe tudo, sendo humilde o suficiente para pedir ajuda ou estudar quando for necessário. È assim que a gente cresce e ajuda a empresa a atingir as metas traçadas. Agora, é bom ressaltar que planejar um projeto não é o mais difícil, o complicado é gerenciar as mudanças que eles pressupõem.


Talentos & Resultados: Existe atualmente algum projeto novo sendo implementado pela gerência de Gestão do Conhecimento na Petrobrás?

Profª Raquel : Estamos acompanhando a implementação de uma comunidade de práticas, através de um projeto piloto, onde haverá espaço para um fórum de discussão, um banco de especialistas e uma base de melhores práticas. A área de negócio que está conduzindo o projeto conta com a assessoria da Schlumberger, que aportou a competência do especialista em comunidades de prática, Sr. David Lecore, no projeto. A nossa função é acompanhar o desenvolvimento desta metodologia, mapeá-la e registrá-la, para que possamos facilmente queimar etapas quando quisermos replicar o projeto nas áreas que se interessarem. Estamos fazendo um trabalho de captura das informações do projeto, através de filmagens, gravações, atas e registros, buscando reter um pouco do conhecimento tácito que existe nestes projetos de consultoria.


Talentos & Resultados: Que tipo de estrutura organizacional a senhora considera adequada para as empresas atuarem satisfatoriamente nesta era do conhecimento, para a prática da Gestão do Conhecimento?

Profª Raquel : Eu tenho receio de simplificar um pouco demais as coisas, mas a Gestão do Conhecimento nos leva a pensar em estruturas horizontalizadas e em gestão por processos. O que se fala é que o mapeamento de processos é a chave das questões relacionadas à GC, que assim as tarefas vão ser resolvidas com muito mais facilidade. Temos nos questionado um pouco sobre isto: agora existe até um grupo de estudo interno para avaliar ferramentas de mapeamento de processos. Algumas áreas da empresa já optaram por alguma ferramenta de mapeamento de processos, e nós estamos aconselhando a estas áreas que pensem também no conhecimento necessário a cada atividade como recurso, associando-o no mapa de processos. Parece que tudo se encaminha para isto, para se trabalhar de uma forma mais horizontalizada e de preferência por processo. O problema é que é bastante demorado mapear todos os processos de uma empresa como a Petrobras. Já houve um primeiro esforço neste sentido, mas pode-se dizer que esta tarefa é praticamente permanente.


Talentos & Resultados: O trabalho que está sendo feito pela gerência de Gestão do Conhecimento é a nível geral, com o apoio da alta direção, ou está atuando mais com protótipos?

Profª Raquel : Estamos trabalhando para definir diretrizes corporativas, através das quais daremos orientações para todas as áreas. Isto, no entanto, não garante que algumas áreas não vão adotar outras metodologia e ferramentas e façam do seu jeito. Contanto que os sistemas e processos conversem entre si, não existe problema. Atualmente somos seis pessoas na gerência e estamos ligados a uma unidade organizacional de staff, a Desenvolvimento de Sistemas de Gestão. A importância que a Alta Direção dá a Gestão do Conhecimento pôde ser vista no último planejamento estratégico, distribuído aos empregados da empresa. Foram adotadas duas políticas corporativas voltadas para a Gestão do Conhecimento: uma aborda o fortalecimento das competências tecnológicas, operacionais e gerenciais da Petrobras e a outra enfoca o compartilhamento de experiências através da gestão do conhecimento. Como ficamos um bom tempo sem realizar concursos, estamos com um hiato considerável na composição do nosso efetivo e desta forma precisamos acelerar o conhecimento dos novos funcionários, aproveitando ao máximo o conhecimento dos antigos. Bem, algumas áreas já estavam pensando em Gestão do Conhecimento antes da criação da gerência, como a área de Exploração e Produção, o Abastecimento e o CENPES, e já tinham projetos que focavam a transmissão e a retenção de conhecimento de alguma forma. Um exemplo é o projeto "GESTÃO SEM LACUNAS", do Abastecimento. Nesta área houve uma mudança cultural profunda; todos os funcionários tornaram-se responsáveis pelo negócio e também pela transmissão do conhecimento.


Talentos & Resultados: A senhora poderia nos falar um pouco sobre a importância de se mapear o capital ambiental para uma organização? E como isto se dá no âmbito da Petrobras?

Profª Raquel : O mapeamento do capital ambiental é fundamental por dois motivos: tanto para que se possa perceber novas oportunidades e ameaças quanto para estar atento às necessidades do mercado. Para isto é preciso que se faça um acompanhamento bem próximo das mudanças que acontecem no ambiente e, neste caso, as ferramentas mais usadas nesta análise estratégica ainda são a Análise das Cinco Forças Competitivas de Porter e a Análise SWOT (que identifica as forças e fraquezas, as oportunidades e ameaças de uma empresa). É importante lembrar que no capital ambiental não se pode interferir, é um capital que deve ser monitorado. Para isto a ferramenta ideal é a Inteligência Competitiva, que monitora o ambiente como um todo. Na Petrobras, além desta, temos o que chamamos de Inteligência de Mercado, que monitora a concorrência, e a Inteligência Tecnológica, que cuida da propriedade intelectual.


Talentos & Resultados: : Um dos pontos chave na prática de Gestão do Conhecimento é que exista um conhecimento e uma conscientização de todos sobre o assunto. Como isto está sendo conduzido na Petrobras?

Profª Raquel : Gestão do Conhecimento é um tema muito amplo e é difícil de medir em que nível se encontra uma determinada empresa. De qualquer forma, já existem alguns estudos bem interessantes sobre isto, como o que foi feito pelo IPEA, através do Sr. Fábio Batista, com seis empresas do executivo do governo federal: a Petrobras, Embrapa, Banco Central, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Serpro. Neste estudo, ele chegou à conclusão, utilizando a metodologia de avaliação da APQC, de que a Petrobras, por exemplo, já está numa fase em que a Gestão do Conhecimento encontra-se institucionalizada. Não temos certeza realmente disto, mas estamos fazendo um trabalho de sensibilização de Gestão do Conhecimento bem interessante e bastante amplo.

Por exemplo, a Petrobras é sócia-jurídica da SBGC (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento) e como sócios mantenedores temos incentivado a realização de vários encontros onde empresas apresentam seus estudos de caso de gestão do conhecimento e contam como fizeram tudo acontecer. Nestes encontros, empresas como Votorantim Cimentos, Ticket e Destilaria Pioneiros de São Paulo contaram quais as ferramentas que desenvolveram, as dificuldades passadas, os problemas culturais enfrentados. Num destes encontros, a E-Consulting, uma empresa de consultoria, apresentou um modelo de capital intelectual com indicadores, conduzida pelo Sr.Daniel Domeneguetti, um especialista que está despontando nesta área com idéias novas no que se refere a indicadores, que é um ponto crítico em Gestão do Conhecimento.

Quanto à sensibilização da Gestão do Conhecimento, estamos trabalhando com dois tipos de estratégias: uma na qual atuamos sob demanda, sensibilizando as pessoas para a importância da Gestão do Conhecimento à medida que elas nos procuram, e outra mais ativa, na qual temos diversos mecanismos para começar a despertar as pessoas para o tema. Por exemplo, estamos distribuindo uma cartilha explicando quais são as práticas mais usadas em GC, enfatizando sempre o que é aquela prática, para que ela serve e como pode ser implementada. Esta cartilha foi traduzida para o espanhol para atender nossas unidades no exterior, na Colômbia, Argentina e Bolívia. Utilizamos o nosso site interno de modo a disponibilizar a maior quantidade de informações sobre o assunto para todo o Sistema Petrobras, tais como cursos ministrados na Universidade Corporativa, apresentações internas e externas, relatórios, artigos, dicas de livros etc. Estamos montando uma comunidade onde as pessoas poderão discutir GC, através de relatórios e estudos feitos nesta área. Esperamos com tudo isto estar facilitando a disseminação da Gestão do Conhecimento na Companhia.