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Dalila de Brito Ferreira

· Presidente da Fundação João Goulart, Instituto de Pesquisas em Administração Pública do Rio de Janeiro.
· Ex-secretária Municipal de Administração do Rio de Janeiro.
· Pós-graduada em Administração Pública pelo IBAM e Altos Estudos de Política e Estratégia pela ESG.
· Professora e Conferencista.

Talentos & Resultados: Desde quando se têm iniciativas em Gestão do Conhecimento (GC) na prefeitura do Rio de Janeiro?

Profª Dalila : Na verdade a preocupação com a Gestão do Conhecimento é alguma coisa que acompanha a prefeitura desde muito tempo. A institucionalização no entanto, só aconteceu com a edição de um decreto do prefeito instituindo o grupo de Gestão do Conhecimento no âmbito da prefeitura. A Fundação João Goulart (FJG) entrou nesta questão na medida em que a Controladoria, que sediava a GC, transferiu esta gerência para a fundação por entender que esta, por ser o Instituto de Estudos e Pesquisas em Administração Pública, era, por definição, a sede melhor para abrigar a GC. Na verdade desde que vim para a FJG, há um ano atrás, passamos a hospedar a GC aqui com muito sucesso e entusiasmo.


Talentos & Resultados: Todos os órgãos da prefeitura estão envolvidos? Em que nível se encontram?

Profª Dalila : A GC precisa ser antes de tudo uma conquista, uma sedução mesmo. Não adianta imaginar que formalizando, institucionalizando, destinando um representante de cada órgão da prefeitura para colaborar com a equipe Central de GC, ou seja, colocando em cada órgão da prefeitura um braço do conhecimento, signifique que se conseguiu resolver o problema da sensibilização, pela necessidade de se ter toda a parte conceitual, conhecimento histórico mesmo de nossa instituição, que cuida direta e indiretamente de cerca de 6 milhões de pessoas. Hoje já avançamos bastante neste processo, tanto que tratar de GC na prefeitura, no início talvez fosse considerado diletantismo de poucos que não teriam muito que fazer e aí se dedicassem a discutir estes temas. Hoje a consciência e a percepção de GC está mudando; isto se verifica não só pelo número de pessoas que se interessam pelo assunto, como passaram a trocar mensagens , a perguntar sobre o assunto, assim como a acolhida que tivemos quando realizamos o primeiro seminário interno de GC no âmbito da prefeitura. O evento se realizou em setembro de 2003 e tivemos um interesse absoluto com representação de pessoas de toda a prefeitura, desde o primeiro escalão com altos dirigentes até o setor operacional. A partir desta avaliação, que foi a melhor possível, começou a mudar a percepção do que é GC na prefeitura e hoje já não se fala do tema como algo para poucos, para alguns.


Talentos & Resultados: Poderia nos falar um pouco mais sobre este seminário e a respeito dos trabalhos apresentados?

Profª Dalila : O seminário teve numa primeira etapa, uma apresentação mais conceitual teórica do que vem a ser a GC, recorrendo a pensadores e a correntes filosóficas de pensamento em relação à GC. Na segunda etapa tivemos a apresentação de estudos de casos da prefeitura, mais especificamente três iniciativas de GC de sucesso, como foi o caso da Comlurb, do Previ-Rio e da Guarda Municipal. As apresentações foram extremamente consistentes, bem elaboradas principalmente na escolha dos conteúdos, dentro de uma linha estratégica orientada pela Equipe Central de GC, que classificou cada "case" dentro de um grupo temático fundamental de GC, respectivamente: Cultura Organizacional, Tecnologia da Informação e Aprendizagem Organizacional. Os trabalhos tiveram uma empatia muito grande por parte da platéia e alcançamos assim um resultado muito bom, tanto que estamos programando o segundo seminário para não ter descontinuidade neste processo tão essencial de sensibilização mais ampla.


Talentos & Resultados: Tendo em vista a descontinuidade administrativa no setor público, como fica a continuidade deste projeto de implantação de GC na prefeitura? Ou seja, existe um risco dele ser abandonado numa próxima gestão?

Profª Dalila : Sempre existe este perigo em termos de mudança de governo, não só este projeto como tantos outros, que teriam uma vida com muito êxito, acabam sendo descontinuados por conta da falta de sensibilidade de eventuais sucessores e governantes. A contra-partida disto e o contraponto que podemos fazer, e aí entra a FJG muito diretamente, é você investir na profissionalização dos agentes públicos. No momento em que você tem agentes públicos mais conscientes e mais preparados , melhor formados, isto é com certeza uma defesa contra os "espasmos" de governância que temos. Se você tem uma burocracia no melhor sentido, profissional, efetivamente funções do estado, nós conseguimos, como servidores públicos profissionais, manter estas iniciativas e projetos a apesar dos eventuais vetos dos governantes. No caso da Prefeitura, eu acho que trabalhamos inclusive com um cenário muito promissor, que é a reeleição do prefeito César Maia, este um governante absolutamente preocupado com a questão da profissionalização do setor público, da humanização da relação dos servidores com a população, que em última análise são os nossos clientes e destinatários de nossas ações, e particularmente a questão da GC por entender que gerir conhecimento na Prefeitura é decisão estratégica para melhorar e qualificar cada vez mais o serviço prestado à população.


Talentos & Resultados: Existe uma estrutura organizacional específica para tratar da GC na prefeitura?

Profª Dalila : Estamos no momento apresentando uma proposta de reestruturação da FJG ao Prefeito, até porque assumimos a Fundação há cerca de um ano. A Fundação, em seus 12 anos de existência, já passou por alguns processos de descontinuidade administrativa, ameaças de dissolução, mas felizmente ela se recuperou e hoje o cenário é muito positivo, muito em função da sensibilidade do Prefeito Cesar Maia. Nesta proposta de reestruturação, consagramos a GC como um dos processos-chave da Fundação. Antes, a Equipe Central de GC era tão-somente a figura do Coordenador, Luiz Carlos Azevedo; agora, a partir da vinda do projeto para a Fundação, formalmente através de Resolução da Controladoria Geral do Município, GC se materializa institucionalmente, e essa institucionalização se traduz em iniciativas concretas. Consagrando como processo-chave da Fundação, estamos entendendo que você não consegue efetivamente aumentar a capacidade de governo, missão da FJG, sem um cuidado , uma preocupação especial com a GC institucionalizada, construída ao longo de tantos anos de existência de nossa instituição Prefeitura. Como unidade da Federação, o Rio de Janeiro já passou por várias formas de governo: fomos Distrito Federal, Cidade - Estado, capital de Estado; assim, é incalculável a riqueza dessa trajetória em termos de acervo, de memória organizacional, história relação-poder, cada mudança é uma ruptura de impactos e, como toda mudança, é um processo complexo, com aspectos também intrigantes tais como a perda de memória, a descrição da trajetória de tantos anos de luta por um reconhecimento como espaço público de decisão, da racionalidade da decisão pública, de como é que a gente pode , através de um processo coerente e conseqüente de gestão da coisa pública, melhorar e até transformar a realidade objetiva das pessoas.


Talentos & Resultados: Quais são os programas que a FJG possui como órgão responsável pela capacitação e aperfeiçoamento dos funcionários da prefeitura?

Profª Dalila : Na Fundação temos algumas vertentes na questão de desenvolvimento de pessoas: primeiro, consciência de que nós trabalhamos com uma matéria muito rica que é o ser humano. Nossa preocupação é, dessa forma, revelar a dimensão humana. A estratégia contempla duas vertentes principais: a elevação do nível de escolaridade formal do servidor público. Nesta linha temos o projeto das tele-salas, que talvez seja um dos mais gratificantes, porque é muito estimulante ver servidores depois de uma jornada inteira de trabalho, virem para os bancos escolares das 17 às 20 horas e se transformarem em alunos, interessados, mesmo depois de terem trabalhado duro ao longo do dia. Vemos que a maioria ao chegar aqui se transforma, pela magia que é a Educação; tornam-se alunos, como em qualquer instituição de ensino convencional, felizes, brincalhões, liberando a criança que vive em cada um, o resgate de sua dignidade como pessoa. Vêem a possibilidade de terem um diploma de ensino médio como sinônimo de melhoria de qualidade de vida , de auto-estima, de poder contar para seus filhos que agora podem sonhar com uma Faculdade, com o aprimoramento da sua visão de mundo, o que, na verdade, ocorre quando você inclui o estudar na sua rotina . A outra vertente é a de especialização em diversas áreas: Saúde, Educação, Segurança Pública e Gestão Pública Municipal. Na Saúde já estamos na quarta turma de MBA. Até o final de 2004 pretendemos ter a implantação da Universidade do Servidor; já estamos com o termo de referência pronto, e estamos viabilizando parcerias e convênios com outras instituições de ensino. Temos também a meta de alcançar, até final de 2004, dois mil servidores com a escolaridade de ensino médio concluída, e já certificada pelo MEC Estamos, na verdade, falando de um corpo de funcionários valorizados e motivados para o desempenho da função pública.


Talentos & Resultados: A FJG pretende ter ou já possui algum curso em GC?

Profª Dalila : Nós já passamos a adotar em todos os cursos de especialização um módulo de GC; isto para nós é condição básica, não abrimos mão de incluí-lo na grade dos cursos regulares que estamos promovendo. Não fizemos ainda um curso específico voltado para a GC, mas muito em breve estaremos cumprindo este objetivo. No momento nossa preocupação é disseminar a GC como estratégia necessária ao sucesso de toda organização e em especial do serviço público, que, diferentemente de outras empresas que concorrem no mercado, tem como preocupação o bem social. Você tem o bem social como seu objeto de trabalho e não pode se permitir dispensar uma estratégia como esta de profissionalizar nossos agentes públicos, sensibilizar e aumentar o nível de consciência e os padrões éticos, a preocupação com o Conhecer. Conhecer é transformar e transformar é aprender, desaprender e reaprender, é investir no potencial humano, razão última da própria Gestão do Conhecimento.


Talentos & Resultados: Vocês possuem algum programa de valorização dos talentos dos servidores?

Profª Dalila : Nós temos duas ações principais nesta área. Uma é de sistematizar e estabelecer uma política orgânica de capacitação e desenvolvimento de pessoas, porque isto faz a diferença, e sabe por quê? Porque antes poderia haver uma leitura de que capacitação era despesa e, na verdade, nós mudamos esta ótica, para capacitação ser investimento. Investimento como preocupação da Prefeitura; e ela se preocupa em investir em pessoas por entender que isto significa aumentar a capacidade de governo, aumentar a qualidade das respostas que a prefeitura dá para sua população. A outra vertente, sublinhada pelo Prefeito Cesar Maia, é a de se aproveitar os talentos da Prefeitura, de seu corpo profissional, para utilizá-los em cursos, potencializando a área de conhecimento desses talentos e da própria Prefeitura. Sempre que existir alguém capacitado para transmitir determinado conhecimento dentro da prefeitura, não vamos buscar alguém de fora. É uma política de recursos humanos, de se trabalhar numa linha política que não é salário que motiva o funcionário, muito pelo contrário, salário é uma coisa, remuneração é outra e motivação é outra. Pode-se ter profissionais ganhando bem com baixa motivação e, contrário sendo, ter salários nem tão representativos, mas com alta motivação pelo fato de as pessoas perceberem que estão sendo reconhecidas por mérito. A repercussão é positiva para o restante da Prefeitura. Vamos, neste sentido, fazer um cadastro de banco de talentos e multiplicar as oportunidades de aproveitamento desses perfis. É importante salientar que ninguém aqui na prefeitura quer reinventar a academia; ela tem suas funções, sua racionalidade, seu regime de verdades, tem uma linha de pesquisa, pode e deve pensar em aumentar o conhecimento pelo conhecimento. Na linha da prefeitura, ampliamos esta dimensão e aí é o conhecimento aplicado. Precisamos ter a preocupação do conhecimento aplicado por termos uma peculiaridade que faz o diferencial: a de termos o monopólio dos pobres. Monopólio dos pobres é uma preocupação ética vital nas nossas ações, uma vez que em muitos setores públicos ou a população é atendida pela prefeitura , ou não haverá atendimento algum. Se você sabe que domina monopolisticamente o mercado, só consegue estimular a competição se investir no viés ético, e então esta competição passa a ser o tempo todo virtual. Eu sei que as pessoas vão estar numa fila para serem atendidas num posto de saúde, por exemplo, podem achar ruim, mas vão embora e voltarão no outro dia porque não têm alternativa. Trabalhar nesta dimensão é muito complexo, é necessário estar "mordido" pela vontade de aprender cada vez mais e mais; se superar continuamente.


Talentos & Resultados: Na sua opinião qual seria o novo perfil de profissional que o mercado vem exigindo, nesta era de competitividade?

Profª Dalila : Em primeiro lugar é uma formação complexa. Não como sinônimo de difícil, mas complexa filosoficamente entendido como alguma coisa que possui várias dimensões. Não se trata simplesmente de acumular conhecimento de maneira linear. Significa que o perfil requerido é um perfil multifuncional, absolutamente "antenado" com a necessidade de mudança que é própria do nosso tempo. É importante ter a inovação como rotina. Se você achar que já tem o domínio de todo conhecimento de que você precisa, imediatamente, já está superado. Esta inquietação do conhecer, faz parte da base deste perfil que é exigido pelo mercado. Então, como é que é ter a inovação como rotina? É saber que hoje a grande "commodity" é o conhecimento, a hegemonia das idéias, e como fala o prefeito, a imaterialidade do seu produto. Se antes as pessoas se davam por satisfeitas com um produto padrão que lhe era apresentado, hoje não aceitam mais passivamente o que o mercado lhes oferece, exigem mais, têm mais conhecimento, padrão de exigência cada vez mais apurado, quer produtos personalizados e diferenciados porque o mundo está conectado . Imagine só como isto ocorre na área do conhecimento, onde a realidade se mostra muito mais dialética Para se localizar neste mundo de verdades não mais definitivas, de ciclos tecnológicos muito mais curtos, é preciso ter agilidade de acompanhar as mudanças muito mais que na época dos nossos pais.


Talentos & Resultados: Quais as formas de divulgação da GC que a fundação vem adotando? Tem algum setor específico para tratar deste assunto?

Profª Dalila : Existe o grupo da equipe central de gestão do conhecimento juntamente com um grupo de colaboradores instituídos pelo prefeito pra dar visibilidade e disseminar a gestão do conhecimento, além de ser uma preocupação nossa, institucional da FJG de não confinar a GC. É importante imaginar que de uma maneira mágica, o Conhecimento está em toda a parte; se entendermos a GC como algo confinado talvez já estejamos começando de maneira enviesada, ela tem que ter possibilidade de expansão assim como o poder. Evidentemente que em certos locais, como a FJG, onde o objeto de trabalho é o conhecer e é o conhecimento, pode-se estabelecer uma afinidade direta com a GC. Em contrapartida é preciso que haja a institucionalização. Reconhecer estruturalmente a função, consagrar espaços para esta gestão, reconhecer, fomentar discussão, troca de experiências e saberes, e, fundamentalmente, religar estes saberes. Aí eu concordo com o Edgar Morrin, quando defende a identidade planetária de todos nós. É preciso que tenhamos esta preocupação de não confinar o saber, mas de religá-lo o tempo todo. Daí vem a complexidade da humanidade, de não ser possível pensar, de maneira simplória, uma aritmética de conhecimento. Conhecimento não se soma aritmeticamente, mas geometricamente, e se interpenetram diversos olhares sobre os objetos do conhecimento. Aí sai esta mistura rica que é a capacidade de se ver melhor, de se perceber melhor o outro e poder interagir, no que se constitui a verdadeira virtualidade filosófica. Conhecimento que não interage é apenas diletante, às vezes até arrogante e não contribui, não melhora a condição humana. Se torna antropofágico pois acaba engolindo a pessoa que é detentora desse conhecimento, porque ela não faz com que o seu conhecimento seja percebido pelo outro. Gostaria de frisar ainda que a curiosidade é o grande insumo do conhecimento; deve estar sempre conosco pois quando se perde isto se perde a capacidade de aprender. Porque o que falta conhecer é sempre muito maior do o que já conhecemos, como dizia Sócrates: "quanto mais sei, mais percebo que não sei". Saber mais, instigar as pessoas a não ficarem acomodadas com o que já sabem é nossa luta diária, é o papel de uma instituição que se diz instituição de ensino, onde talvez se aprenda muito mais do que se ensina na troca de humanidades. A FJG tem este dever de fazer com que as pessoas não se sintam satisfeitas com o que dominam em termos de conhecimento, porque conhecer é uma utopia e como toda utopia move o mundo!