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Profª. Elisabeth Gomes

· Mestre em Engenharia Nuclear e Planejamento Energético (COPPE/UFRJ).
· Doutoranda em Engenharia de Produção (COPPE/UFRJ) Assessora do Presidente da Anatel.
· Colaboradora do CRIE - Centro de Referência em Inteligência Empresarial da COPPE/UFRJ.
· Co-autora do livro Gestão de Empresas na Sociedade do Conhecimento.

Talentos & Resultados: Temos observado, no nosso site, que as organizações têm dado um enfoque muito grande para o capital intelectual, quando se fala em Gestão do Conhecimento. O que a Sra. poderia nos dizer a respeito ?

Profª Beth Gomes: O que ocorre é que as empresas, na sua grande maioria, não compreenderam que Gestão do Conhecimento não é somente gerenciar o capital intelectual. Elas confundem a Gestão do Conhecimento com capital intelectual; não perceberam que o capital de relacionamento também é importante, assim como o monitoramento do ambiente de negócios, etc.. Se elas não souberem onde estão trabalhando, quem são os seus concorrentes, qual o seu objetivo estratégico, não descobrirão quais as competências que precisam para seus colaboradores e conseqüentemente não será possível maximizar o capital intelectual.
Inclusive esta confusão pode ser observado em toda literatura, seja brasileira ou não, as empresas interpretam a Gestão do Conhecimento como sendo gestão do capital intelectual. Por esta razão estão surgindo as universidades corporativas, para trabalhar o capital intelectual. É muito comum relacionar Gestão do Conhecimento com gerenciar pessoas, que implica gerenciar conhecimento, que implica gerenciar capital intelectual.
Outro fator importante a observar na literatura, é que muitas empresas definem capital intelectual como conhecimento das pessoas e outras como competência das pessoas, o que é completamente diferente. Você pode por exemplo ter um determinado conhecimento que não está alinhado com as suas competências; que não interesse para a sua empresa no momento, mas é um conhecimento que pode ser utilizado em outra oportunidade. " Gestão do conhecimento não é só capital intelectual " .


Talentos & Resultados: A Sra. considera que já existe bibliografia brasileira suficiente sobre este assunto?

Profª Beth Gomes: Não, bibliografia brasileira, não. Já existe muita obra traduzida, mas produzida no Brasil temos pouca. Sobre Gestão do Relacionamento e valor de cliente ainda não temos quase nada. Sobre Capital Estrutural já temos muitas referências principalmente sobre processos, patentes, marcas. Quanto ao Capital Intelectual tem surgido alguns casos brasileiros a respeito, mas ainda não publicados. Quanto a Inteligência Competitiva para gerenciar o capital ambiental, também não existe quase nada produzido aqui. As editoras estão buscando autores que queiram escrever casos brasileiros.
A Editora Campus por exemplo traduziu um livro sobre Inteligência Competitiva com casos práticos, que mesmo sendo de empresas multinacionais, com unidades no Brasil, não teve uma boa aceitação, porque os casos não se aplicavam totalmente ao Brasil, pois foram desenvolvidas para um ambiente de negócios diferente do nosso.
Considero importante incentivar as pessoas a escreverem a respeito deste assunto, assim como vocês escreveram os cadernos CRIE, contando as experiências no projeto piloto de Gestão de Competências. É importante que as pessoas continuem escrevendo, mesmo que não seja o melhor no momento, mas é uma divulgação de caso nacional. Quando se traz um exemplo de fora temos que considerar que a cultura da empresa é outra; o ambiente onde ela esta inserida é outro; a maneira de construir a empresa é diferente; as leis são diferentes. Enfim, existem muitas diferenças.


Talentos & Resultados: Como se pode medir o capital intelectual?

Profª Beth Gomes: Eu tenho buscado muito isto na literatura; inclusive encontrei um livro nos EUA, há um tempo atrás, que em inglês tinha o título de "ROI of Human Capital ". Achei que seria o máximo. Comprei o livro e vim lendo no avião. Reparei que ele associava o Balance Score Card ao capital intelectual , que ele chamava de capital humano, mas na realidade tratava-se de uma simples aplicação do Balance Score Card, nada mais que isto. Mais tarde eu li a tradução do livro, que não tinha nada a ver com o original. Enviei uma carta à editora criticando a tradução e ela foi refeita . Entrei em contato com o autor, perguntando como é que efetivamente ele tinha medido o retorno do investimento, e ele respondeu que ainda estava estudando; que ainda não conhecia literatura suficiente para medir o retorno efetivo, para a empresa, de alguém que porventura tenha feito um curso, por exemplo.
A medição do capital intelectual é difícil, pois é um ativo intangível. Quando você matricula um colaborador em um curso e ele retorna à empresa, você até consegue medir se a produtividade dele aumentou com o investimento. Se houve maior eficiência. Mas o quanto isto agregou de valor à empresa , não se consegue medir. O processo como um todo sabe-se que melhora, mas tem que se procurar indicadores quantitativos, uma vez que hoje o que se consegue são medidas qualitativas. Ainda são muito empíricas e subjetivas.


Talentos & Resultados: A Sra. acha que deve existir um número ideal de competências para mapear as pessoas ?

Profª Beth Gomes: Não. Para as pessoas eu creio que não. Vai depender do cargo que a pessoa vai exercer e não creio que deva haver um número fechado de competências para as pessoas. Para uma função até é possível determinar, por exemplo, um limite de dez competências necessárias.
Eu achei interessante uma conversa que tive com um aluno meu do Inmetro, que esteve no Uruguai semana passada, num evento do Mercosul. Soube que está em estudo a criação de uma nova norma ISO, que pretende certificar as competências das pessoas, uma coisa extremamente nova, que significa, por exemplo, que para uma função de torneiro mecânico você terá que se certificar nas competências necessárias a esta função. Terá que responder a uma série de perguntas e ganhar os pontos necessários para obter o certificado. Creio no entanto que isto pode cercear um pouco a criatividade das pessoas, uma vez que busca enquadrá-las nestas competências.


Talentos & Resultados: Como é que a Sra. se tornou uma pessoa tão famosa nesta área, conseguindo ter tantas atividades ao mesmo tempo; dando aulas, escrevendo livros, trabalhando na Anatel em Brasília ? O seu sucesso poderia ser creditado a um talento específico seu ?

Profª Beth Gomes: Não creio que isto deva ser creditado a um talento específico. Até o ano de 1998 eu não tinha nada disso. Trabalhava na CNEN, era assessora do diretor de pesquisa e tinha um trabalho técnico, desenvolvendo gerência de projeto . Quando conheci o CRIE, na UFRJ, passei a participar da Gestão do Conhecimento. Gostei tanto que me dediquei 120% a isto !
Eu cresci e produzi tudo o que está aí, e continuo a produzir, porque realmente me identifiquei e tenho paixão por este trabalho. A produção, o fato de fazer mil coisas ao mesmo tempo, é porque eu realmente gosto do que faço. Descobri que gosto de dar aulas e orientar pessoas. Gosto de trocar idéias e a Gestão do Conhecimento me possibilitou isto. Fazem mais ou menos 5 anos que eu estou nesta área e produzi muito mais do que nos outros 20 anos da minha vida. É incrível esta mudança. Acho que o meu talento devia estar esquecido em algum lugar, ou eu não tive chefes que perceberam isto e não me incentivaram, ou eu mesma não percebi a minha real vocação. O fato foi que encontrei pessoas que me incentivaram, a ponto de eu virar a noite; buscar pessoas na Internet que nunca havia tido contato, etc... Falava de um assunto que acreditava e acredito ainda . Com isto o meu capital de relacionamento melhorou muito, tanto que brincam comigo, que conheço metade do Rio de Janeiro e a outra metade me conhece ! Eu tenho esta facilidade de conquistar pessoas , e buscar as coisas através delas, parcerias e soluções. E isto eu acho que todas as pessoas podem fazer.
A minha curva de aprendizado nestes últimos 5 anos, foi cem vezes maior em relação ao que tinha feito antes. Não foi o doutorado que me propiciou isto. Foi a paixão pelas pessoas que estavam juntas, que sempre se respeitaram muito, compartilhando o conhecimento, aprendendo e tendo confiança entre si.


Talentos & Resultados: A Sra acha que esta curva de aprendizado sua tende a continuar com este crescimento fantástico ?

Profª Beth Gomes: Não creio que ela vai poder crescer sempre desta forma. Eu acredito estar chegando num ponto de maturidade desta curva, onde eu posso escolher as coisas que eu gosto mais de fazer, como focar um determinado nicho para estudar. Mas eu quero continuar a ensinar as pessoas, como se fossem meus aprendizes, para que isto não se perca, para que elas continuem a fazer, o que para mim já não é tão importante, mas é para a Gestão do Conhecimento.


Talentos & Resultados: Atualmente, a Sra esta escrevendo algum livro novo? Poderia nos falar algo sobre ele ?

Profª Beth Gomes: Será lançado em março um novo livro que será a atualização do meu livro sobre Inteligência Competitiva, incluindo casos práticos.


Talentos & Resultados: A Sra considera que alguns fatores como o fato de ser mulher por exemplo, exerça influência para se conseguir o sucesso nesta área ?

Profª Beth Gomes: Não, atualmente isto não tem muito a ver, antigamente sim, principalmente na minha área de engenharia mecânica e nuclear, era um mundo mais dos homens.
Hoje nesta área de Gestão do Conhecimento não existe nada disto. Hoje se consegue expor mais as idéias com menos fórmulas matemáticas, desperta mais a sua criatividade. É possível potencializar a sua vivência, o seu conhecimento de vida no seu trabalho. Acima de tudo o que conta para colaborar com seu sucesso, é descobrir o que você realmente gosta de fazer.


Talentos & Resultados: A Sra poderia nos falar um pouco sobre competências complementares?

Profª Beth Gomes: Quando eu conheci o pessoal do CRIE, descobrimos que cada um tinha uma competência, que juntas formavam uma competência que veio a fazer o sucesso do negócio.
Havia desde o início uma sinergia muito grande e uma confiança entre todos. Entre a Raquel Balceiro, o Marcos Cavalcanti, o Damião e todas as outras pessoas que trabalhavam juntas no laboratório. Acredito que nesta data, 1998, em que começamos a trabalhar juntos, tudo foi propício; as competências complementares, o ambiente de trabalho, a confiança, ou seja, os astros conspiraram para tudo dar certo. Eu gostava de falar com as pessoas; a Raquel era uma pessoa organizada; o Marcos um bom palestrante; o Damião organizado para as finanças. Agora o mais interessante é que isto foi por acaso, este encontro das competências necessárias não foi estudado, mas aconteceu e se conseguiu compartilhar e aprender muito, porque havia o principal, confiança, respeito, um ambiente muito saudável. Isto tudo fez o trabalho deslanchar e conseguir o reconhecimento que se tem hoje em dia.