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José Arnaldo Deutscher

Economista pela UFRJ, com mestrado e doutorado em Gestão da Inovação pela Coppe/UFRJ, ex-diretor de diversas empresas industriais e de serviços, especialista em Plano de Negócios, Gestão da Inovação e Avaliação de Ativos Intangíveis e sócio da Antera - Gestão de Recursos S.A.

Realizada em 09 de Fevereiro de 2011, no escritório da Antera - Gestão de Recursos S.A. - Praia de Botafogo - Rio de Janeiro.

Talentos & Resultados: Professor, você poderia nos dizer, como estudioso de ativos intangíveis, o que efetivamente se deve entender por capital intangível de uma empresa?

Prof. José Arnaldo: Inicialmente, o que são ativos tangíveis? Um exemplo simples nesta sala seriam as cadeiras, as mesas, o computador. Já o intangível, é o conjunto de processos que possuímos aqui, é o que faz o que nos torna mais eficientes ou mais competitivos no mercado.

A nossa função na Antera, por exemplo, é administrar Fundos de Investimento e para que ela possa ser competitiva e captar os recursos para investir é necessário que as pessoas a escolham por algum motivo. E por que, para que elas acreditem na gestora? Porque ela é detentora de conhecimentos e processos proprietários que foram desenvolvidos ao longo do tempo e que são difíceis de serem copiados. Uma de nossas ênfases está na governança e no compliance, ou seja, tudo deve ser absolutamente transparente e estar de acordo com as leis, regras e regulamentos do país.

Alguns exemplos de ativos intangíveis para uma gestora, além de sua credibilidade, são os seus processos de prospecção, seleção e acompanhamento dos investimentos e uma rede de investidores para realizar o desinvestimento.

Talentos & Resultados: Já é consenso de que na sociedade do conhecimento os capitais intangíveis são a fonte de vantagem competitiva para as empresas. A grande dificuldade sempre se comenta que é como avaliar estes intangíveis. O que existe atualmente em termos de metodologia de avaliação, neste sentido?

Prof. José Arnaldo: A resposta se divide em valoração em termos quantitativos e qualitativos.

Em termos quantitativos (valor em R$), o valor do intangível depende da situação negocial de cada comprador e vendedor. O valor de uma marca, por exemplo, vale quanto?

O comprador é quem vai determinar o quanto esta disposto a pagar por aquela marca.

O valor de uma marca esta associado ao custo de oportunidade do vendedor e ao valor que ela agrega ao comprador.

Numa negociação, não existe “quanto vale” em termos objetivos, existe “quanto vale para o comprador”! Normalmente o comprador esta disposto a pagar o que o intangível, no caso a Marca, irá agregar ao seu fluxo de caixa! O valor que será agregado ao seu negócio é o que conta. Concordo com os autores que afirmam que o valor da marca para o comprador é o valor presente (present value) da diferença entre dois fluxos de caixa, com e sem a marca. Já o vendedor deverá examinar se vale a pena para ele vender a marca ao preço que este comprador deseja comprar. É uma questão de custo de oportunidade.

Já em termos qualitativos podemos citar como exemplo o modelo de avaliação dos intangíveis que o CRIE- Centro de Referência em Inteligência Empresarial da COPPE-UFRJ - desenvolveu em 2007, sob demanda do BNDES. O trabalho se dividiu em:

(a) uma modelagem de Rating que considerando os intangíveis com objetivo de criar uma estrutura mais flexível de avaliação de empresas.

(b) a elaboração de um modelo de relatório de capitais intangíveis com o objetivo de reduzir a assimetria da informação entre as empresas e o mercado.

A modelagem do Rating buscou identificar os recursos (aqui no sentido da Visão Baseada em Recursos - VBR) que as empresas devem ter para executar a visão e estratégia definida pelos acionistas.

A literatura (Sveiby, Edvinsson, entre outros) em 2007 considerava apenas três capitais intangíveis - Relacionamento, Estrutural e Humano. A estes o CRIE incorporou os capitais Ambiental, Estratégico e o Financeiro.

O capital de relacionamento considera a relação entre todos os envolvidos no negócio, fornecedores, parceiros, clientes, além da marca.

O capital estrutural inclui os processos, os sistemas de informações gerenciais, a governança, e o processo de inovação.

O capital humano, considera as competências dos profissionais, definida como o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA) e as formas pelas quais a empresa obtém o comprometimento e retenção de seus gestores e colaboradores.

O capital ambiental é a riqueza do ambiente econômico e social onde a empresa esta inserida e a sua capacidade da empresa em se relacionar com este ambiente e dele extrair valor Como riqueza do ambiente entende-se estar próximo a um centro de conhecimento e ter um ambiente de inovação, legal e regulatório favorável.

O Capital estratégico são os processos que a empresa tem para monitorar o seu ambiente externo para perceber e depois se apropriar de novas oportunidades ou mitigar as ameaças.

O capital financeiro é a competência da empresa em formular e executar uma estratégia financeira que otimize o resultado do acionista. Como otimização entende-se a relação Risco / Retorno.

Para cada capital intangível foi identificado seus principais ativos e/ou competências.

Cada capital foi dividido em ativos. Assim, por exemplo, o capital estratégico foi dividido nos seguintes ativos:

Capitais Ativos / Competências
1. Estratégico
1.1 Sistema de monitoramento do Mercado
1.2 Sistema Estratégico

O Sistema de monitoramento do mercado foi então dividido nos seguintes indicadores:

- processos de captura de informação;

- processos de disseminação do conhecimento;

- processo de transformação de informação em conhecimento.

No processo de elaboração foram entrevistadas quatro grandes empresas brasileiras, e atribuídos pesos e medidas para cada um dos indicadores, que foram avaliados através de perguntas feitas e checadas pelos analistas.

Através destes pesos chegou-se ao cálculo do Rating, de Capital Intangível de uma empresa.

Talentos & Resultados: Qual a vantagem que existe para uma empresa, ela ter um sistema de métricas de valor, com base nos ativos intangíveis?

Prof. José Arnaldo: Se aceitarmos que os intangíveis são a fonte da vantagem competitiva a resposta parece clara. Neste caso vantagem competitiva é o que me faz diferente da concorrência. Para tanto ela deve ser percebida pelo cliente como um agregador de valor ao seu negócio.

Em termos de metodologia de avaliação de intangíveis, é importante ter um sistema de métricas que monitore a capacidade da empresa em ser competitiva. Se, por exemplo, a empresa tiver um produto excelente, mas sua distribuição for deficiente ele jamais chegará até o cliente final. Se não tenho um bom processo de inovação, meu P&D desenvolverá produtos que os pesquisadores gostam e não aqueles que os clientes desejam.

Talentos & Resultados: Você poderia falar um pouco sobre a metodologia de Rating, (o que significa, porque o interesse do BNDES neste sentido) proposta pelo CRIE-COPPE ao BNDES no Rio de Janeiro?

Prof. José Arnaldo: Podemos dizer que o Rating é um sistema de avaliação qualitativo que mede o grau de maturidade de uma empresa. O que os financiadores querem é saber se a empresa será competitiva no mercado e irá gerar valor - leia-se receita e caixa de forma a crescer.

Talentos & Resultados: Você poderia esclarecer o que vem a ser um relatório de capital intangível e qual a sua finalidade dentro de uma empresa?

Prof. José Arnaldo: Normalmente no final de cada ano, as empresas emitem um Balanço e um Demonstrativo de Resultados. O problema é que os ativos intangíveis não são considerados nestes relatórios.

Você pode pensar nos intangíveis como ativos ocultos.

Imagine que em seu bairro uma construtora irá construir um prédio. - Inicialmente ela fará as fundações e todo o dia ao passar pelo local você não verá nada - somente um grande buraco. Um dia ela termina as fundações e o prédio começa a subir. O que você continua vendo ainda é muito pouco - no entanto muito dinheiro já foi gasto e bastante valor já foi criado. É importante que durante toda a construção os condôminos recebam relatórios de progresso da obra para que saibam como está o seu andamento. Em uma empresa é o mesmo - suponha que uma empresa esteja construindo um novo produto ou um novo processo - com isto gasta recursos financeiros em termos de salários e psquisas contratadas. Este gasto aparecerá como uma despesa no Demonstrativo de Resultados fazendo com que o lucro e, consequentemente, o fluxo de dividendos para os acionistas diminuam. Se não tenho a informação do que está sendo construído, as ações da empresa perderão valor no mercado permitindo que alguém próximo à empresa, detentor desta informação (inside information), se aproveite (apesar de proibido pela CVM- Comissão de Valores Mobiliários) e compre ações a preços baixos para revendê-las posteriormente, quando os preços subirem.

Um relatório de intangíveis mostra a construção destes pilares (foundations) de sustentabilidade da empresa. Deve informar como a empresa investe em pesquisa e desenvolvimento, em inovação, como aproveita as oportunidades de negócios, como usa sua rede de contatos, seus recursos humanos. Decorre daí que este relatório atua como uma ferramenta de informação interna e externa à empresa, essencial para a transparência entre a gestão e os investidores.

É importante ressaltar aqui que os ativos intangíveis são muito importantes principalmente para as empresas iniciantes (start ups) de base tecnológica, que tem no conhecimento seu maior ativo. Se analisarmos o Balanço de uma empresa deste tipo para investir, não veremos nada, nenhum ativo tangível ou intangível.